Moradia adequada vai muito além de ter um teto, aponta especialista em Neuroarquitetura

Moradia adequada vai muito além de ter um teto, aponta especialista em Neuroarquitetura
Foto: Divulgação
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Ter uma casa não significa, necessariamente, ter acesso a uma moradia adequada. Condições como conforto, segurança, infraestrutura, privacidade e pertencimento também fazem parte do que especialistas consideram essencial para uma habitação digna.

A reflexão ganha destaque nesta sexta-feira (21), Dia Nacional da Habitação. Para a arquiteta e pesquisadora em Neuroarquitetura Inaha Paz, discutir o tema exige olhar não apenas para o acesso a um imóvel, mas também para as condições em que as pessoas vivem e para as desigualdades que influenciam o acesso à moradia.

Dados mais recentes da Fundação João Pinheiro apontam que o Brasil registrou 5.773.983 domicílios em situação de déficit habitacional em 2024, equivalente a 7,4% dos domicílios particulares ocupados. Apesar da redução em relação ao ano anterior, o número ainda representa milhões de famílias vivendo em condições consideradas inadequadas.

O Nordeste concentrava aproximadamente 1,46 milhão de domicílios em déficit. O recorte racial também evidencia diferenças: na sistematização da Fundação João Pinheiro com dados de 2023, pessoas pretas e pardas correspondiam a 67,9% dos responsáveis pelos domicílios em déficit no país. No Nordeste, esse percentual chegava a 81,4%.

Para Inaha Paz, os números demonstram que a questão habitacional também está relacionada às desigualdades raciais e territoriais.

“Não dá para falar de habitação sem falar de raça, território e justiça espacial”, afirma.

Qualidade da moradia também entra na discussão

A análise sobre habitação não se limita à existência de um imóvel. A Fundação João Pinheiro passou a considerar, a partir da PNAD Contínua 2023, diferentes formas de inadequação dos domicílios urbanos, incluindo problemas de infraestrutura, condições das edificações e questões fundiárias.

Para a pesquisadora, elementos do ambiente, como ventilação, iluminação, temperatura, circulação, privacidade e organização, influenciam diretamente a experiência cotidiana dos moradores.

“A arquitetura não resolve o déficit habitacional, porque essa é uma questão que envolve políticas públicas, renda, acesso à terra e infraestrutura, mas ela pode contribuir para uma discussão mais ampla sobre o que significa oferecer uma moradia digna”, explica.

Segundo Inaha, construir unidades habitacionais é apenas uma parte da questão. Também é necessário considerar as pessoas que irão ocupar esses espaços e suas condições concretas de vida.

Arquitetura, identidade e pertencimento

A perspectiva racial é um dos elementos presentes nas pesquisas desenvolvidas por Inaha Paz por meio da Afroneuroarquitetura®, campo que relaciona arquitetura, neurociências, saberes africanos e afrodiaspóricos, pan-africanismo e amefricanidade.

A pesquisadora defende que a relação das pessoas com seus espaços de moradia também é influenciada por memória, identidade e ancestralidade.

“Uma casa não começa na parede. Ela começa na história de quem vai morar nela”, afirma.

De acordo com Inaha, essa perspectiva ganha relevância quando se considera a trajetória histórica da população negra brasileira e as desigualdades relacionadas ao acesso à cidade, à terra e à moradia.

Essa abordagem também está presente na Casa Curativa®, metodologia desenvolvida pela arquiteta a partir de três dimensões do habitar: corpo, mente e memória.

A proposta considera tanto aspectos físicos do ambiente quanto as experiências emocionais e os vínculos culturais e afetivos estabelecidos pelos moradores com o espaço.

Melhorias habitacionais podem impactar bem-estar

Uma pesquisa realizada em 2025 pela Habitat para a Humanidade Brasil com 430 famílias beneficiadas por melhorias habitacionais apontou impactos positivos após as intervenções.

Segundo o levantamento, 98% das famílias relataram melhora nas condições da moradia, enquanto 96% perceberam aumento no conforto e na salubridade. O mesmo percentual afirmou que as melhorias tiveram impacto positivo na autoestima da família.

Entre os entrevistados com histórico de doenças respiratórias, 76% relataram melhora nos sintomas.

Para Inaha Paz, os resultados reforçam que a moradia adequada envolve diferentes dimensões da vida.

“Saúde, segurança e pertencimento não são dimensões separadas. Elas fazem parte da experiência de habitar”, conclui.

Sobre Inaha Paz

Arquiteta e pesquisadora em Neuroarquitetura, Inaha Paz é criadora da metodologia Casa Curativa®. Natural de Catu, na Bahia, e radicada em Salvador, atua há 16 anos com projetos de arquitetura, interiores e consultorias.

Formada em Comunicação Social e Design de Interiores, possui formação em Neuroarquitetura e desenvolve pesquisas que aproximam arquitetura, neurociência, ancestralidade e experiência racial.

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