Café pode ficar mais caro com risco de “Super El Niño”, alerta especialista
A próxima safra brasileira de café poderá enfrentar um cenário de maior pressão diante da combinação entre estoques reduzidos, custos elevados de produção e a possibilidade de ocorrência de um “Super El Niño”. Segundo dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa), citados na reportagem, a probabilidade de ocorrência do fenômeno chega a 90%.
O cenário coloca produtores e consumidores em alerta, principalmente diante dos possíveis impactos climáticos sobre regiões produtoras de café no Brasil e em outros países.
Em entrevista ao Real Time, do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, José Carlos Hausknecht, sócio em agronegócio da EY Brasil, explicou que os efeitos do El Niño não devem ser uniformes entre as diferentes regiões produtoras.
Segundo o especialista, o café arábica brasileiro tende a sofrer menos impactos diretos do fenômeno. Já as regiões produtoras de conilon, como o Espírito Santo e o sul da Bahia, podem enfrentar consequências relacionadas a períodos de seca.
A diferença ocorre porque os efeitos do fenômeno climático variam de acordo com as condições de cada região produtora. Uma eventual redução da oferta brasileira poderia ocorrer ao mesmo tempo em que outros importantes produtores mundiais também enfrentariam dificuldades.
No mercado internacional, esse cenário pode pressionar as cotações da commodity.
“Todas essas regiões que são afetadas pelo El Niño acabam puxando os preços internacionais da commodity, e isso leva a uma subida de preços nos preços internos também”, afirmou Hausknecht.
Além dos fatores climáticos, o mercado internacional também enfrenta dificuldades logísticas. Segundo o especialista, problemas de infraestrutura na Colômbia, relacionados a terremotos, afetaram portos e dificultaram as exportações do país.
Apesar do aumento dos custos de produção e das incertezas climáticas, o cenário atual ainda é considerado favorável para os cafeicultores brasileiros.
A avaliação leva em consideração a produção nacional e os preços da commodity, que, embora tenham recuado em relação a períodos anteriores, permanecem em patamares considerados elevados.
“A rentabilidade está muito boa, na verdade. Quer dizer, quem tem café, para quem produziu café, e o Brasil tem uma boa safra, inclusive, e com preços que caíram, mas ainda estão em um patamar bastante elevado”, avaliou Hausknecht.
O desempenho das últimas safras também contribuiu para fortalecer a posição financeira de parte dos produtores. Com maior capacidade de esperar por melhores condições de comercialização, muitos cafeicultores passaram a segurar estoques diante da possibilidade de redução da oferta no Brasil e no exterior.
A estratégia pode limitar a disponibilidade imediata do produto no mercado e contribuir para sustentar os preços.
Para o consumidor, a perspectiva é de atenção. Uma eventual combinação entre problemas climáticos em países produtores, redução da oferta e retenção de estoques pode aumentar a pressão sobre os preços internacionais e, consequentemente, sobre o mercado brasileiro.
O histórico de episódios de El Niño citado pelo especialista indica uma relação entre eventos climáticos de maior intensidade, redução das safras e elevação das cotações do café.
Caso o fenômeno se confirme e provoque impactos relevantes sobre a produção mundial, os efeitos poderão chegar às prateleiras dos supermercados.
Por isso, a possibilidade de novos aumentos no preço do café já aparece no radar do setor. Como resumiu Hausknecht, o cenário “tem que estar no radar” do consumidor.


