Brasil ‘não cabe no quintal de ninguém’; diz Lula em discurso na ONU
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu nesta terça-feira (22) a soberania dos países e o princípio da não interferência em assuntos internos durante o discurso de abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
Em sua fala, Lula afirmou que a comunidade internacional precisa escolher entre diferentes caminhos para enfrentar os desafios atuais, citando como exemplos o multilateralismo e o unilateralismo, além da democracia e do extremismo.
“Somos chamados a optar entre multilateralismo ou unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação”, afirmou.
O presidente também fez referências à posição do Brasil nas relações internacionais. Segundo Lula, a proximidade geográfica com os Estados Unidos, descritos por ele como a maior potência militar do mundo, é uma realidade, mas isso não deve significar subordinação brasileira.
“A proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável”, declarou. Em seguida, afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e defendeu relações com parceiros que tenham uma agenda voltada ao desenvolvimento.
Lula também afirmou que diferenças ideológicas não devem impedir a integração entre países vizinhos e declarou que a democracia voltou a estar sob pressão. Na avaliação apresentada pelo presidente, há atualmente casos de interferência externa em processos eleitorais.
“A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano”, afirmou.
Relações com os Estados Unidos
O discurso ocorre em meio a um período de tensão nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. O cenário envolve questões comerciais e também o processo eleitoral brasileiro.
Durante sua fala, Lula criticou as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e citou o funcionamento da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos”, declarou.
Segundo o presidente, a utilização de tarifas como instrumento de pressão pode produzir consequências negativas para a economia internacional. Lula afirmou ainda que, apesar das medidas tarifárias, o Brasil deverá registrar novo recorde de exportações neste ano.
Outros temas abordados
O presidente também dedicou parte do discurso a questões relacionadas à segurança internacional, tecnologia e economia.
Sobre o combate ao crime organizado, Lula defendeu maior cooperação entre os países para combater o fluxo internacional de armas e recursos financeiros utilizados por organizações criminosas.
Na área de inteligência artificial e redes digitais, criticou o que chamou de “tecno-oligarcas” e defendeu a regulamentação das plataformas digitais.
Lula também mencionou o PIX, afirmando que o Brasil não pretende ceder a pressões de empresas multinacionais relacionadas ao sistema de pagamentos.
Na política internacional, defendeu o multilateralismo, reformas no Conselho de Segurança da ONU e a utilização da diplomacia para a resolução de conflitos.
Meio ambiente e recursos naturais
A agenda ambiental também esteve entre os temas do discurso. Lula afirmou que o Brasil pode conciliar desenvolvimento econômico, redução das emissões de gases de efeito estufa e preservação ambiental.
O presidente destacou a redução do desmatamento na Amazônia e afirmou que a floresta “vale mais em pé do que destruída”. Também citou a matriz energética brasileira como uma das referências internacionais em energia limpa.
Ao mesmo tempo, Lula defendeu a exploração de recursos naturais, incluindo aqueles localizados na Margem Equatorial, além das chamadas terras raras utilizadas em tecnologias relacionadas à transição energética.
Segundo o presidente, a exploração desses recursos deverá estar associada à geração de valor no país, transferência de tecnologia e atendimento a setores considerados estratégicos.
Brasil abre tradicionalmente o debate geral
A Assembleia Geral da ONU é o principal órgão deliberativo das Nações Unidas e reúne representantes dos 193 Estados-membros.
Tradicionalmente, o Brasil é o primeiro país a discursar na abertura do debate geral, prática mantida desde 1955. Neste ano, Lula foi seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.


