Arquiteta e pesquisadora Inaha Paz propõe olhar racial para Neuroarquitetura no Brasil
A relação entre ambiente construído e saúde mental tem ganhado espaço nas pesquisas científicas nos últimos anos. No campo conhecido como Neuroarquitetura, estudos investigam como luz, ventilação, cores, proporções e organização espacial influenciam emoções, cognição e comportamento.
A proposta é compreender como estímulos ambientais impactam o cérebro e, consequentemente, o bem-estar. Bases científicas internacionais como ScienceDirect e PubMed reúnem pesquisas que associam características ambientais à qualidade do sono, sensação de segurança, desempenho cognitivo e níveis de estresse.
No entanto, segundo a arquiteta e pesquisadora Inaha Paz, esses estudos raramente consideram como raça, território e desigualdade interferem na experiência espacial.
Baiana de Catu e radicada em Salvador, Inaha atua há 16 anos com projetos de arquitetura, interiores e consultorias voltadas ao bem-estar. Criadora da metodologia Casa Curativa e pesquisadora em Afroneuroarquitetura, ela finaliza atualmente um MBA em Neuroarquitetura e Design do Bem-Estar Humano.
Para a arquiteta, há uma lacuna estrutural na área:
“Quando afirmamos que o espaço impacta o cérebro e as emoções, precisamos perguntar qual corpo está sendo considerado nesses estudos e em que contexto social ele vive.”
Segundo ela, grande parte das pesquisas parte de uma ideia universal de sujeito, desconsiderando como corpos negros e racializados vivenciam espaços marcados por racismo estrutural, exclusão simbólica e desigualdade territorial.
É a partir dessa ausência que surge a Afroneuroarquitetura, campo de pesquisa que articula neurociências, saberes africanos e afrodiaspóricos, pan-africanismo e amefricanidade.
A proposta é investigar como diferentes experiências históricas e sociais moldam respostas emocionais e cognitivas ao ambiente construído.
Para Inaha, reconhecer essa dimensão não significa segmentar a arquitetura, mas ampliar sua responsabilidade social.
“A experiência espacial não é neutra. Corpos que convivem com vigilância constante ou precarização urbana respondem aos ambientes de forma diferente.”
O debate também fundamenta a metodologia Casa Curativa, estruturada em três dimensões integradas:
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Corpo (conforto físico e sensorial)
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Mente (equilíbrio emocional e estímulos cognitivos)
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Memória (ancestralidade e repertório afetivo)
A proposta entende o habitar como experiência que envolve continuidade histórica e pertencimento.
Ao inserir o recorte racial no debate sobre ambiente construído, a pesquisadora posiciona a arquitetura como ferramenta de cuidado, saúde mental e equiparação social.


